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02/10/2013 | 16:10

As lições de Bertha Becker para o futuro da Amazônia

Conheci a professora Bertha bem depois de ter lido seus livros. Acabamos nos encontrando diversas vezes, muitas delas com o intuito de atendar a demanda de órgãos governamentais dispostos a colocar em prática o que ela sempre defendeu: ‘a solução para o desenvolvimento da região amazônica requer inovação e um avanço técnico capazes de promover o ingresso de valor nas cadeias produtivas’.
O conceito, que pode até soar vago para quem não é da área econômica, é de grande importância. A compreensão do trabalho de Bertha Becker leva a alguns aprendizados essenciais.
 
Primeira lição: não existe "a Amazônia", mas diversos espaços geográficos coexistentes e suas respectivas populações. Hoje é fácil dizer, mas Bertha foi uma das pioneiras na negação do conceito, ainda bastante arraigado, de que a Amazônia é um espaço vazio de gente. Não é à toa que seu último livro trata de um desses ambientes que é pouquíssimo considerado no debate do desenvolvimento nacional: as cidades amazônicas.
Ao contrário do espaço rural, que se encaixa no modelo contemporâneo de crescimento como fronteira de expansão dos polos agroexportadores, o encurtamento das cadeias produtivas exclui as possibilidades de inserção econômica dos centros urbanos da região, visto que a centralização das atividades de agregação de valor e a produção de conhecimento ocorrem fora da Amazônia.
 
O que nos leva à segunda lição: só haverá possibilidade de conservação da "Amazônia clássica" (a floresta e seus povos) se houver a constituição de centros de geração e difusão de progresso técnico na região, permitindo o aproveitamento dos imensos recursos naturais e humanos. Na minha interpretação, isso é a tal da Economia Verde, mas esse não era um termo que a professora gostasse de usar. Na sua visão, induziria à mercantilização da natureza sem resolver os problemas fundamentais de desigualdade e expropriação. Mas, entre nós, quando uma discordância surgia, era sempre expressa em tom inconfundível de simpatia, que acabava induzindo a uma convergência de pensamento.
 
Nossa última conversa foi uma das mais longas. Voltamos juntos de um seminário em Brasília e, com tempo de sobra, sentamos para papear no aeroporto. Fomos ao andar de cima, onde estão os bares, e imaginei que iríamos tomar um café. Para a minha surpresa, ela perguntou: "Vamos tomar uma caipirinha?".
 
Aceitei. E então perguntei do início de seu trabalho na Amazônia (se ir a campo hoje é difícil, imagine naquela época). Bertha desandou a desfiar suas histórias, sempre finalizadas com seu jeito sorridente e um doce "não é mesmo?". Além de cientista pioneira, era uma pessoa querida por muita gente. Não é mesmo?
 
Por: Cristiano Góes
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